Da Ligúria a Casablanca

Fazendo vinhos com um grande amigo italiano em uma das cidades de Cinque Terre na Liguria, decidimos fazer alguns barris fermentando variedades de uvas brancas locais, 100% com suas cascas. Queríamos experimentar e ver o resultado. Em viagens ao Collio Friulano e à Eslovénia já tinha experimentado alguns vinhos feitos desta forma e fiquei muito impressionado com o volumen de boa, sua potência e austeridade.

O resultado ao fim de 10 meses foi muito bom, mas antes desse momento foi uma montanha russa de experiências: o mosto era castanho escuro, depois da fermentação desenvolveram-se aromas muito ruins, fechados, reduzidos, que após alguns meses desapareceram, o vinho decantou e mostrou a sua verdadeira face, com uma cor amarelo pálido, ligeiramente velada pelas borras. Um vinho diferente do que se fazia em Monterroso al Mare com as uvas Bosco e Albarola e, a longo prazo, foi um componente fixo no vinho branco da pequena adega que se apoiava nos socalcos plantados com vinhas e limões.

Parte dessa experiência está na base conceitual de nosso Chardonnay Gran Reserva.

Como já se sabe, o Vale do Casablanca é fortemente influenciado pelo Oceano Pacífico. As manhãs nubladas e frias, devido à entrada da brisa costeira, são uma constante neste jogo que dá lugar ao sol do meio-dia, aumento da temperatura e forte arrefecimento quando se põe. Não é estranho a nós vestir-se com roupas mais quentes ao final do dia, mesmo no verão.

Casablanca é um pequeno vale interior, mas com diferenças marcantes de temperatura nas extremidades oeste e leste. Particularmente frio ao redor das “bocas” que o conectam com Valparaíso e Algarrobo. Lo Ovalle está localizado no meio do vale, com seu setor sul diretamente relacionado com a abertura para Algarrobo. Por outro lado, o Campo Belen está situado no interior, ou seja, a norte, apresentando uma condição de temperatura que consideramos mais adequada para Chardonnay e Pinot Noir sobre SauvignonBlanc, em parte também por se situar na orientação oeste.

Começando com a safra de 2011, nos concentramos em um vinho que refletia o setor de interiores Lo Ovalle. Para tal colocamos a fruta como eixo articulador, procurando fazer um vinho acima de tudo equilibrado, fino e austero onde a fruta fosse o denominador comum, mas não pela doçura e sim pela estrutura.

Com quase 20 anos de experiência no vale, o nosso viticultor Manuel Cuevas não poderia ter sido melhor aliado para tentar captar esta ideia. Selecionamos o lote de Espino, na parte mais fria do país, próximo à barragem de Lo Ovalle. Com sua condição de vinha clonal com cacho pequeno e regular, aliada ao cultivo em alta densidade em solo granítico de baixa fertilidade, profundo e com mais de uma década de manejo específico para uvas da melhor qualidade, tornou-o a escolha ideal.

Procurávamos aquele caráter mais elegante e menos doce do vinho, ainda com a colaboração pela fermentação com suas cascas. O corte é composto por uma colheita anterior de menor maturação para não ultrapassar os 13,5 graus de álcool e um controle na fermentação malolática que permite que a sua complexidade não repouse sobre ela, mas sim sobre a fruta e a sua estrutura.

O fruto franco e a cremosidade devem-se em grande parte à união de dois fatores:  sua origem e a sua elaboração, com 40% de fermentação com suas cascas e o mosto remanescente, de elevada turbidez fermentado em fudres e grandes barricas novas de Carvalho e ovos franceses de cimento. O corte final é então composto por três linhas principais, onde cada uma contribui para o equilibrio de fruta fresca, cremosidade e austeridade. O envelhecimento por 12 meses complementa esta vinificação particular, conferindo-lhe um grande potencial de envelhecimento.

O resultado é um vinho altamente identificado com a sua origem, que necessita de pelo menos 6 meses de envelhecimento em garrafa para mostrar toda sua gama de aromas a frutos secos, notas cítricas, maçã verde e uma certa mineralidade, bem como, em boca, ser muito fresco, tenso e linear ao mesmo tempo em que é voluptuoro e fácil de beber.

Ricardo Baettig

Enólogo Viña Morandé

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